Música

Tomba Orquestra

Tomba Orquestra

Exatos 5.843,33 quilômetros separam Niterói, Brasil, de Kingston, Jamaica. Esqueça o avião, o barco, a bicicleta; há um modo de vencer essa distância, sem sair do lugar, em menos de meia hora. Cortesia da Tomba Orquestra, que em seu novo trabalho – o EP "Sombras", com sete faixas inéditas – constrói uma ponte direta entre sua sempre exuberante sonoridade e o reggae, explorado em diversas nuances. 

E é esse o trabalho que a trupe promete mostrar no Memorial Getúlio Vargas, Volta Redonda, cidade parceira do Projeto Niterói Além da Ponte. O show acontece no sábado, 06 de julho, às 18h. 

No seu primeiro disco (o álbum homônimo lançado em 2014) o supergrupo capitaneado pelo produtor e multi-instrumentista Bruno Marcus oferecia um roteiro de viagem amplo, indo do jazz ao funk, passando pelo rock e referências cinematográficas. Já novo trabalho aguça o foco e mostra o poder de fogo da Tomba Orquestra ao exercitar todas as possibilidades da rica música jamaicana.

Como o disco de estreia, "Sombras" é uma reunião de grandes talentos. Comparsas habituais como Pedro Selector (trompete), Gilber T (guitarra e baixo), João Pinaud e Servio Túlio (vozes) ganham reforços de Reppolho e Tata Ogan (percussões), Hiroshi Mizutani (teclados) e Felipe Escovedo (baixo). Mais marcante ainda é a ênfase nos arranjos de sopros e metais, despachados por uma brigada que inclui nomes como Gabriel Dellatorre (clarineta), Marco Serragrande (trombone), Laura Berredo (flauta), Lincoln Marques e Lincoln Castro (saxofones). Essa turma dá corpo às composições, todas – à exceção de uma – assinadas por Bruno e subintituladas como “Dub”. Emulando fielmente a sonoridade dos sound systems originais, a produção incluiu efeitos como os reverbs de mola e os delays usados nas décadas de 1960 e 1970 na Jamaica.

Os títulos das músicas refletem argutamente sobre o complexo momento social e político que o Brasil vive. Conflitos, alienação e desencanto com o status quo, reflexões que honram o engajamento político que caracterizou grandes momentos do reggae no passado. E reafirmam uma verdade: viajandão, hipnótico e sensual, o som da Jamaica também pode estimular o cérebro. O repertório, de acordo com o próprio maestro, reflete influências tanto dos pioneiros jamaicanos (Marley, King Tubby, Lee Perry, Augustus Pablo) quanto dos desbravadores subsequentes (Clash, UB40, Gorillaz, Mad Professor). 

Primeira parte de uma trilogia de EPs que, reunidos, formarão o LP Sambas, Sobras e Sombras, o novo trabalho da Tomba Orquestra resume a complexidade da proposta do grupo. É variado sem abandonar a coesão conceitual; incorpora o espírito da Jamaica sem nunca deixar de soar brasileiro; instiga o cérebro, sem esquecer do requebrado.